des (a) parecer – Graça Sarsfield

A Biblioteca Municipal de Ponte de Sor vai inaugurar no dia 21 de Abril de 2007 (sábado) pelas 17h30, a Exposição de Fotografia e Video – des (a) parecer, de Graça Sarsfield, antecedida pelas 16h30, da conferência “A Fotografia e o Video na Arte Contemporânea” pela Dr.ª Emília Tavares. A exposição estará patente ao público até dia 15 de Maio de 2007. Esta actividade é organizada pela Câmara Municipal de Ponte de Sor, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e A Loja do Lopes.

GRAÇA SARSFIELD vive e trabalha em Lisboa.
Do seu currículo fazem parte várias exposições individuais e colectivas, tanto em Portugal como no estrangeiro. A sua obra encontra-se representada nas seguintes colecções:

Fundação PLMJ, LISBOA
Banco Espírito Santo, BES, LISBOA
AFCA, Encontros da Imagem, BRAGA
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
Colecção Serpa: Auto Retratos de Artistas Contemporâneos
Museu de Arte Contemporânea do Funchal
Colecção Câmara Municipal de Lisboa
Colecções Particulares

E nas seguintes publicações:

VOZES E OLHARES NO FEMININO. 2001,PORTO – Capital Europeia da Cultura
À FLOR DA PELE- João Miguel Fernandes Jorge, 2001
SILÊNCIOS – Paulo Cunha e Silva, 2000
GESTOS NO FINAL DO SEC. XX – João de Lima Pinharanda, e Luís Serpa,1998
INDIA SONGS – Bernardo Pinto de Almeida, 2002
Anamnese – (Fundação Ilídio Pinho), 2006
Publicada na imprensa nacional e internacional (selecção): Revista Egoísta, Elle, Revista Reitoria Universidade do Porto, Oriente, Le Monde, Die Zeit, Vogue, Marie Claire

Silêncios

O silêncio tem diferentes apresentações, modalidades e motivações. O silêncio acontece porque não há nada para dizer ou, no limite, porque há um excesso de coisas para dizer que se empurram e se auto-anulam no momento da enunciação. O silêncio pode ser brutalmente ruidoso, pode furar os tímpanos nesse excesso de vazio.
O silêncio pode, por isso mesmo, ser o momento imediatamente anterior à produção de um grito. Pode ser um grito suspenso que, pelo facto de o ser se transforma num processo violento de auto – punição, semelhante àquele que acontece quando guardamos na boca toda a raiva que nos vai na alma. Um silêncio pode assim valer mais que mil palavras. Pode dizer tudo aquilo que todos os gritos conseguem. Que todos os enunciados escamoteiam.
Há no silêncio um sentido, uma intensidade de comunicação que só se revela quando ele se instala no meio do mundo e funciona como fundo-forma desse mundo. Quando o silêncio irrompe, é o som que faz de fundo. A música, as palavras, a comunicação podem ser entendidas como o negativo de uma colecção de silêncios, de não-ditos que se alinham ao longo do tempo.

Graça Sarsfield silencia-se, esconde-se, veste-se de luto e grita (silenciosamente) incorporando as quatro “Fleurs du Mal”. Ela é “Melancolia”, “Solidão”, “Memória” e “Violência” sem que de facto o possamos saber porque a autora neste auto-retrato elíptico, desaparece por trás do silêncio negro que decide vestir. De certa forma, ela convoca-nos para dizer que o seu verdadeiro auto-retrato é aquele das papoilas, é aquela mancha vermelha que irrompe subitamente num campo alimentado pelas chuvas e estimulado pelo sol.
A fotografia aproxima-se, aqui, da performance, quase daquilo a que por vezes se chama o “teatro da vida”.É por isso que essas imagens desconcertantes de papoilas super luminosas contrastando com o luto carregado, silencioso, brutal que a fotógrafa decide vestir, nos enviam para um terreno estranho, para um curioso paradoxo. O que será que Graça Sarsfield nos quer contar? Como consegue ela polarizar – se entre duas atitudes tão diferentes? A não ser que uma indicie a outra. E a papoila seja o desejo de rotura que existe dentro dela.
Neste fito morfismo, neste desejo de transformação em alegre e despreocupado vegetal, a fotógrafa esconde também um profundo ímpeto de liberdade. Ela faz da fotografia, mais do que a matéria que utiliza para criar, a metáfora da sua condição. Ela usa a revelação fotoquímica como a sua revelação. Ela mostra – se com a fotografia. E só mostra porque a fotografia assim o permite – porque se serve da câmara escura para se revelar.
Como diria Barthes, esta câmara é, sobretudo, clara. Esta câmara é um processo de revelação, de caracterização, por mais que esconda e silencie.

É neste jogo de sombras (ou melhor, de sombras e de claridade) que esta obra deve ser entendida. Ela é um claro-escuro. A denúncia de um escuro, de um negro insuportável, e o desejo de um claro, de uma rotura em direcção à claridade, em direcção á liberdade.
Graça Sarsfield usa a fotografia como exorcismo. Ela faz-se fotografar, empresta o corpo, o volume do seu corpo, mas logo se escamoteia. Quando entramos nesta exposição não imaginamos a sua dimensão autobiográfica. Não imaginamos que ela está lá com toda a intensidade, embora completamente silenciada para poder gritar com mais intensidade.

É mais provável que quando as flores do mal secarem definitivamente, ela reapareça vermelha, papoila, despida tal como é ou desejaria ser; mas esse será o filme da sua vida.

Paulo Cunha e Silva
Maio de 2000

Galeria

Graça Sarsfield
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