O Segredo – Margarida Dias

A Biblioteca Municipal de Ponte de Sor vai inaugurar no dia 24 de Março de 2007 (sábado) pelas 17h30, a Exposição “O Segredo”, fotografia de Margarida Dias, seguida às 18h30, de conferência a designar. A exposição estará patente ao público até dia 17 de Abril de 2007.
Esta actividade é organizada pela Câmara Municipal de Ponte de Sor, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e A Loja do Lopes.

Margarida Dias
Depois de completar o plano de estudos de fotografia (1983/89) do Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, Lisboa, foi convidada para aí continuar como professora (1989/2006). Durante o mesmo período foi também professora de fotografia no IAO – Instituto de Artes e Ofícios, da Universidade Autónoma de Lisboa. Simultaneamente, prossegue a sua actividade como fotógrafa profissional, com colaboração em jornais, agências de publicidade, ateliês de design e de arquitectura. É também, desde 2002, fotógrafa do Teatro Nacional D. Maria II. Com 20 exposições individuais e várias colectivas, está representada em colecções tanto públicas como privadas, quer no estrangeiro (Fondazione Italiana per la Fotografia – Turim, Itália), quer em Portugal (Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa; Encontros de Imagem – Braga; Colecção Culturgest; Colecção PLMJ – Sociedade de Advogados)

Margarida Dias tem publicado regularmente desde 2000 um calendário temático com as suas fotografias. Publicou igualmente o livro O Segredo, sobre o Atelier do escultor Lagoa Henriques, edição do Arquivo Fotográfico de Lisboa, CML, 2001.

De mão em mão
Chegado ao Porto recomecei a descoberta do mundo. Adolescente quase, deixei que entre o espanto e a velocidade a minha vida se fosse enchendo de diferenças. Pela mão do meu Pai cheguei ao atelier do Lagoa Henriques, um portão cinzento na rua de São Victor e a mão que me levou largou a minha para bater duas vezes. Aberta a porta fiquei então diante do Mestre e da sua casa. Uma árvore apanhada na rua com um balão japonês de papel suspenso de um ramo, seria a primeira diferença. Depois o barro envolto em plástico, a escultura velada no processo de fazer-se, as inumeráveis maravilhas de madeira e pedra, de bronze de terra e gesso, os livros, as imagens. Para lá da amizade que pareceu logo acontecer e aconteceu de facto, começou o processo de aprendizagem que ainda não terminou. Espaço povoado de forma estranha, continha de modo cuidadoso ou descuidado os frutos de muitas colheitas e estações, em praias e terras, de aqui ou de ali, por países distantes ou ao pé da porta.
Ter entendido a primeira lição sobre a importância das coisas e principalmente o que são coisas importantes foi fundamental e profundo como ter entendido a lição do risco, “ O Risco Inadiável” do Lagoa Henriques. No decorrer destes anos persisti riscando e fui construindo a meu modo os meus próprios universos de nadas e muita coisa, passando assim através do tempo e dos seus dias um testemunho precioso e sem preço.

Quando conheci a Margarida e começámos a nossa própria viagem fizemo-lo a partir do meu atelier do Baleal; um espaço pobre carregado de memórias do mar e dos dias; pedras, fósseis, restos do tempo, arames retorcidos, madeiras carcomidas por bichos e marés, inúteis aparelhos de pesca, pinturas e desenhos onde o bolor e a ferrugem eram mais tinta do que as próprias tintas. Assim como me espantara eu em São Victor espantou-se agora esta rapariga de olhos grandes, recebendo de uma só vez o peso do testemunho e do segredo. De alma e olhar intactos começou então a sua própria colheita por esse mundo que só se revela quando partem aqueles que por cima dele passam descuidados.
Fotógrafa com obra precoce e desde sempre voltada para a noite e para as sombras, vem construindo um processo criativo e coerente de registos pessoais invariavelmente tecido por uma sensibilidade e uma franqueza invejáveis, uma teimosia inelutável, obstinada até, que não encontrou ainda obstáculos que lhe causassem desvio ou arrependimento. Principalmente só e por sua conta e risco.
Falámos sempre desse Lagoa, presente na minha vida, do modo como lhe aprendi os passos, ficando sempre a promessa do encontro.
Pela minha mão e pela da Lúcia Vasconcelos chegaram-lhe aos olhos Morandi e Sudek, esses dois altíssimos solitários senhores do rigor, riquíssimos de tanta e maior teimosia e obstinação; desviados do circunstancial, fidelíssimos amantes dos mundos subtis e únicos das sombras e dos restos, gentis como gentil se define na poesia de António Machado.
O que a Margarida vem fotografando há quase vinte anos são coisa e momentos à beira de se romperem por tão finas de gastas serem as paredes que as contêm.
É então o encontro prometido e de novo pela minha mão batemos à porta do atelier do Lagoa, este de Lisboa, esse atelier magicamente renascido do desastre e onde uma vida se refez sobre o trabalho e sobre nadas, restos e coisas ainda para acontecer.
Com o seu olhar tranquilo e sem vergonha lhe pediu para tudo fotografar e ali começou, fixando apaixonadamente os segredos à beira de deixarem de ser. Conseguindo até fixar na película o rumorejar das rolas.

O leque precioso e mundano, o boneco de barro, o cadeirão íntimo e aconchegado, o espelho fosco de tanto ver o que nele se viu, os ossos e os trapos, os frascos vazios e os vidros preciosos, a roda de lata e o ramo partido, a taça de conchas e a concha sem dono, os livros relidos e cheios de gente, as traqueias do mundo, o fragmento de um rosto de gesso que viu o incêndio, a roda de bicicleta que não levará mais ninguém a lado algum, o veleiro de brinquedo e a palmeira dos trópicos, o rosto sereno carregado da ternura de uma mãe que olha ainda o filho inesquecível, a sombra de um anjo, o gato que passa como duende negro e ágil, os troncos comidos pelo mar, o pequeno corpo quase nu que tapa o rosto como se receasse a caveira e a santa que lhe estão ao lado, a pá do lixo, a cama desfeita onde descansou o corpo e ainda preguiça o gato, cordas que amarram e soltaram navios, as penas leves das rolinhas que por ali voam livres, o candeeiro aceso sobre o livro que se lê, os vidros translúcidos que deixam quase ver o Tejo, as bem amadas plantas, as gaiolas abertas onde cantam pássaros, o amontoado de amigos e um ou outro poeta que lhe merecem o olhar, a espinha de peixe e o prato de esmalte, a cadeira rota de palha que lembra Picasso pobre e Van Gogh sempre pobre, os rolos de toalhas de papel onde riscou a mão que antes comeu mas que não pode deixar de ser a mão do escultor.
Ele próprio atravessa fugazmente o seu mistério caminhando para as figuras de mulher que contam num murmúrio que uma outra mulher veio ali para desvendar o Segredo.

Galeria

O Segredo
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